Carta aos alunos

Roberto Piva

Estas anotações foram encontradas num maço dobrado de 7 folhas, deixado entre os cadernos de Roberto Piva, que se encontram arquivados na Biblioteca Roberto Piva. São as anotações para o discurso que o poeta proferiu na cerimônia de formatura de uma turma de alunos que o escolheu como paraninfo. O poeta Claudio Willer estava presente à cerimônia e escreveu sobre este texto e sobre a ocasião do discurso:

"Desde meados da década de 1970 até algum momento dos anos de 1980, Roberto Piva lecionou em colégios. Formado em sociologia, sua matéria era EPB – nome eufemístico para a educação moral e cívica inventada pelo regime militar. Um vazio programático, e por isso inventava. Falava de suas leituras, propunha jogos surrealistas, lia e comentava poemas. Em uma escola da periferia, certa vez perdeu a paciência: tirou a roupa, subiu na mesa e se pôs a gritar: 'Não aguento mais o bom comportamento de vocês!'. Seu último colégio, o Externato Assis Pacheco (onde havia estudado). Alunos apreciavam-no e o convidaram para ser paraninfo de formatura. Assisti à cerimônia: foi na capela da PUC, Piva, vestindo um paletó, lenço de seda no pescoço em vez de gravata, subiu no púlpito. Não leu as anotações, mas o que disse é o que está no texto a seguir. Pena que não tivesse feito isso mais vezes."

Meus alunos,

Dois e dois são quatro, mas não seria uma maravilha se fosse cinco?

Assim afirmava Dostoievsky, querendo dizer com isso que, diante do problema da dor, da angústia, do amor e da morte, o aprendizado lógico-matemático não poderia vir em nosso socorro.

Mas o que pode vir em nosso socorro diante da dor, da angústia, do amor e da morte? Dostoievsky e todo um grupo de pensadores que se engalfinharam com estes problemas concluíram que cada um vive sua própria vida, assim como cada um morre sua própria morte. A experiência da vida e da morte são incomunicáveis, enquanto isso, sondamos a escuridão como os braços de um moinho.

Dostoievsky, Kierkegaard, Nietzsche e outros viveram momentos distintos diante de uma Europa em vertiginosa expansão industrial e colonial, e a subsequente pulverização dos seres humanos em átomos atônitos, angustiados e solitários. Cada um desses pensadores tentou salvar, à sua maneira, a subjetividade do indivíduo, flutuando como um destroço perdido numa realidade em transformação acelerada.

Dostoievsky e Kierkegaard encontraram no cristianismo, principalmente no Velho Testamento, a forma de viverem seu absurdo. Trata-se evidentemente de um cristianismo dilacerado, explosivo, onde aparece Abraão prestes a sacrificar seu filho Isaac por ordem de Deus, embora a lei seja explícita: “não matarás”. Para Kierkegaard, a fé se situa acima da moral.

Nietzsche procura a saúde perdida do homem nos gregos e na euforia de Dionisos, que era o deus grego da festa, do vinho e da dança. Faz em seus livros o balanço de todos os nossos preconceitos, afirma que “o último cristão morreu na cruz” e se desintegra na loucura naquele final sombrio do século XIX.

Os problemas que a História colocou para estes pensadores continuam os mesmos para nós, habitantes do terceiro mundo, com ressalvas para alguns agravantes. De certa forma é um desafio. Todo momento da vida é importante, mas este momento que nós estamos vivendo coincide com o momento em que todo o País procura novas expressões políticas e soluções para suas aspirações.

As injustiças sociais vieram à tona, a barbárie desses últimos anos salta a nossos olhos em todos os canais de televisão, e assuntos tabus como tortura, anistia, sindicatos e partidos políticos são discutidos em nossos locais de trabalho, em casa, no rádio, na televisão, nos jornais etc.

Parece que a entrada na adolescência presenteou vocês com uma abertura. Saberão vocês ampliá-la? Saberão conciliar a carga de absurdo de nossa existência individual descrita por Dostoievsky, Kierkegaard, Nietzsche e outros com as contradições sociais, com seu rosário absurdo de miséria, violência, opressão? A liberdade não se dá, diz Sartre, a liberdade toma-se. E durante todo este ano que passou, discutimos implícita ou explicitamente o problema da liberdade. Todos os nossos hinos patrióticos falam em liberdade. Poderão vocês vivenciá-la? Quando a liberdade explode no coração de um homem os deuses nada mais podem fazer contra ele, diz Orestes, personagem da peça As Moscas, de Sartre. A liberdade é o fundamento da nossa existência, a nossa opção diária, a nossa angústia cotidiana. Estará ela na pauta dos seus corações, ou vocês se acomodarão deixando criar gordura na alma?

A vida, dizia o poeta Antonin Artaud, é queimar questões. Vocês terão a coragem de queimarem a si próprios nesta procura, nesta vertigem? Aí talvez esteja a diferença entre um saber exato, científico, e o saber existencial, filosófico, poético.

Galileu diante da ameaça da fogueira renegou suas descobertas científicas, porque para sua existência era indiferente que a Terra girasse em torno do Sol ou vice-versa. Mais valia conservar a vida e os astros que se virassem. Para ele neste momento 2 + 2 poderia ser até 50. Mas Giordano Bruno que sofreu também a perseguição da Inquisição preferiu a morte na fogueira.

Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. Fez bem, em certo sentido. Essa verdade não valia a fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente. Giordano Bruno, no entanto, preferiu a fogueira da Inquisição a renegar suas ideias mais íntimas e sua filosofia de vida, que lhe davam uma razão para viver e morrer.

A vida é queimar questões. É nos entregar por inteiro todos os dias. É lutar diariamente contra preconceitos, discriminações. É saber, como Oswald de Andrade, que a felicidade do homem é uma felicidade guerreira. Guerra ao imobilismo, à acomodação intelectual, ao preconceito. Numa sugestão do poeta Blaise Cendrars: Tendes as locomotivas cheias, ides partir. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino.

E neste caminho a experiência de cada um é intransferível. Cada um vive sua vida e morre sua morte. Não se pode viver e morrer por procuração. Meus queridos alunos: que estas questões levantadas nesta despedida de curso acompanhem vocês por toda a vida, porque são as questões que absorveram grande parte do pensamento planetário até esta data. O meu amor por vocês gostaria de isentá-los da cota de sofrimento que toda vida deve pagar em tributo. Mas a minha função é prepará-los para o pior e para o melhor. O que será o pior ou o melhor para cada um de nós?

Queimando questões chegamos ao fim do ano de 1979, querendo cada dia mais a vida, que sacrificando seus exemplares mais completos, se compraz em sua própria inesgotabilidade. Só assim podemos exclamar com o Zaratustra de Nietzsche: “Então era isso a vida? Pois bem, repita-se”.

A vocês, de todo meu coração, eu desejo toda a felicidade do mundo.

Muito obrigado.