Raul Fiker, o irredutível

Maria Teresa Mhereb

Fui aluna de Raul Fiker (1947-2017) quando cursei Ciências Sociais na Unesp de Araraquara entre 2005 e 2009. Tive o privilégio de vê-lo mil vezes caminhar pelos corredores do prédio em cimento queimado, vidro e ferro vestindo sempre um daqueles seus coletes de pescador, com mil bolsos cheios de coisas, e chegar atrasado para a aula de Filosofia, despejando sobre a mesa blocos confusos de folhas amareladas com anotações ilegíveis. Com ele, aprendi sobre Descartes, Bacon, Vico, mas também sobre William Carlos Williams, Allen Ginsberg e William Blake. Nunca consegui esquecer o dia em que, no silêncio atento da sala cheia de alunos, sua voz grave e profunda recitava “Tyger Tyger, burning bright, in the forests of the night”.

Filósofo de formação, Raul foi também escritor, artista e tradutor. Como pensador, é uma figura irredutível. Nele, mito e logos, como ele costumava dizer, viviam juntos, mas a convivência não era pacífica. Em um dos últimos encontros que tivemos, pouco antes de falecer, ele me disse com pesar, enquanto comíamos torta de nozes em uma doceria perto de seu apartamento em Perdizes e comentávamos alguns contos escritos por Walter Benjamin, que, dentro dele, logos tinha vencido o mito.

Entendo o que ele quis dizer. Entendo também porque ele se expressou com certa tristeza. É verdade que a maior parte de sua produção escrita esteve ligada à sua prática docente na universidade – ao logos, portanto. Mas não deixo de acreditar que, ainda assim, o mito nunca deixou de ter uma força imensa dentro dele. Entranhou-se de tal forma em sua experiência como sujeito no mundo, que o próprio logos não conseguiu viver sem o mito: sua paixão pela literatura, frequentemente presente em seus textos teóricos, é prova disso. E mais: estou certa de que foi a presença viva do mito que germinou tantas lendas sobre sua figura.

Tentarei explicar por que, a meu ver, Raul lia sua história como um embate do logos com o mito, um embate de que o primeiro teria saído como vencedor.

Durante a década de 1960, o mito está no centro da cena. Raul se liga ao movimento surrealista paulistano, do qual faziam parte também Roberto Piva e Cláudio Willer, e, em 1967, expõe alguns de seus trabalhos visuais na Primeira Mostra Surrealista de São Paulo, que reuniu também obras de Breton, Magritte e Duchamp, entre outros artistas.

Na mesma época, ele inicia a escrita de O equivocrata: uma reta de vista, que se estende ao longo de alguns anos, inclusive durante o período em que esteve na França, no famigerado ano de 1968. O Equivocrata – título que sempre me assombrou por sua potência – foi publicado pela editora de Massao Ohno anos mais tarde, em 1976 (e reeditado pela Editora Córrego em 2017). Esta, que é sua única obra literária, é também uma obra única. Difícil, portanto, classificá-la. Leyla Perrone-Moisés, uma de mais importantes intelectuais brasileiras dos estudos literários e que foi também amiga de Raul, disse certa vez que O equivocrata “é um misto de ensaio com ficção, uma imaginação filosofante que transforma as coisas em aforismos”. “Uma imaginação filosofante” – mito e logos num só lugar. Leyla é brilhante. Sem contestar suas palavras, acredito, ao mesmo tempo, que um caminho possível para ler essa obra tão importante para a literatura paulistana e fazer jus à inconformação de seu autor é encará-la como um conjunto de poemas em prosa, esse tipo textual que nos exaspera tanto quando tentamos defini-lo, que escapa a qualquer univocidade porque consegue conjugar em si todas as formas e todos os conteúdos. A meio passo entre a poesia e a prosa, entre o pensamento e o sonho, entre a linha e a explosão, O equivocrata é tão resistente a restrições quanto o próprio Raul Fiker.

No mesmo ano em que O Equivocrata foi impresso pela primeira vez, Raul formou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Começa mais ou menos aí o processo que levou ao que ele chamou de vitória do logos. Em 1978, iniciou seu mestrado em Teoria e História Literária na Unicamp, concluindo-o em 1983 e passando, em seguida, a trabalhar como docente em disciplinas de Filosofia do curso de Ciências Sociais da Unesp de Araraquara (onde atuou até sua aposentadoria no início dos anos 2010). Durante o período militar, nas décadas de 1970 e 1980, o logos o impeliu à política de esquerda, sobretudo a questões ligadas ao marxismo, integrando organizações militantes e publicando textos autorais e traduções sobre o assunto. A partir da década de 1990, sua imersão nesses debates diminuiu pouco a pouco, o que não significou, no entanto, um afastamento completo. A política continuará presente em sua produção autoral e traduzida, assim como em seu modo de vida.

Encarnando a recusa a toda forma de cerceamento das ideias, sua visão de mundo e sua conduta fizeram dele um intelectual sempre à margem da quantificação. Por vezes criticado por sua “improdutividade” acadêmica, sua figura inadestrada protagonizou infinitas fábulas na Universidade. Uma delas, belíssima, conta que Raul teria defendido sua tese de doutorado em Maio de 1968, em meio às barricadas dos rebeldes franceses. Segundo essa narrativa encantada, ele teria chegado à Sorbonne montando um imponente cavalo branco. Nada disso, no entanto, é factual – é o mito que emana dele e faz florescer as mentes alheias. Raul chegou, como ele mesmo dizia, “atrasado” à Paris (no final de junho de 1968, quando o levante já se dissipava); seu doutorado em Filosofia, por sua vez, foi realizado na USP e na Inglaterra bem mais tarde, entre 1985 e 1991.

Em seus livros teóricos, logos tem que se impor. Dois deles são dedicados a temas próprios da Filosofia: Vico: o precursor (Moderna, 1994) e O conhecer e o saber em Francis Bacon (Alexandria, 1996). Mas o mito está lá, como presença inalienável no próprio logos. Mito e paródia: entre a narrativa e o argumento (Cultura Acadêmica, 2000) está entre a Filosofia e os Estudos Literários, e Ficção científica: ficção, ciência ou uma épica da época? é leitura obrigatória para estudiosos e interessados em ficção científica. Arena perfeita para o enfrentamento entre mito e logos, a psicanálise será objeto de um interesse incansável, desde a juventude surrealista até seu último dia de “septuagenário irresponsável”, como ele me escreveu, piadista, certa vez.

Enquanto tradutora, eu não poderia deixar de mencionar também sua constante atividade tradutória. Raul traduziu mais de trinta obras sobre filosofia antiga e moderna, política e psicanálise, além de obras literárias, como O homem duplo, de Philip K. Dick (Círculo do Livro, 1988). Mito e logos. Na prática de tradução, ele conjugava seus interesses teóricos e literários com seu amor pelas línguas e pela filosofia da linguagem. Raul escolhia o que traduzir, suas decisões eram escolhas pessoais, mas também políticas. Graças a ele, pudemos ler As consequências da modernidade, de Anthony Giddens (Editora Unesp, 1991), Reinventando a esquerda, de David Miliband (Editora Unesp, 1997) e O feminismo mudou a ciência?, de Londa Schienbinger (Edusc, 2001), entre tantos outros livros. O conjunto das obras que traduziu é, portanto, um verdadeiro paideuma pessoal e nacional.

Raul Fiker é irredutível. É o tipo de figura magnetizada que atrai mesmo sem querer, e mesmo que não queiramos. Com seus bolsos cheios de tralhas e seu bigode frondoso, sua imagem é inesquecível para quem o conheceu. Não seria diferente comigo.

Raul, se me permite dizer, você é um tigre cintilante na noite dos meus dias. Prometi te enviar a tradução dos contos de Walter Benjamin, que eu iniciava naquele final de 2017. Quando estiver pronta, ela será sua.